14 O provador de corpos

O que você faria se descobrisse que não é quem aparenta ser? Mas um ente alienígena que investiga a natureza humana e o seu corpo, para transformá-lo numa Colônia de Férias para outros seres do Universo?

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Shartwar não era aquele tipo de indivíduo que se poderia classificar como social. Tinha lá seus defeitos, mas todos passíveis de perdão e clemência; outros sinônimos e pronomes só acrescentariam palavras vazias, sem valorizar a sua íntegra pessoa. Poderiam chamá-lo de um cara sem conteúdo carismático! Pelo menos entre os seus, isto é, os da sua própria raça, não era levado a extremados arroubos de sociabilidade, porém possuía um caráter absolutamente compatível com seu estado de espírito aventureiro.

Nascido de uma família de 285 irmãos, todos Preletores da Ordem, não se situou bem quando foi empurrado para o “Scholarium” a fim de ser o ducentésimo octogésimo sexto preletor; e ao entrar na classe “Primus” pela primeira vez se deparou com o “Grão Mestre” lhe impondo regras, teve a plena convicção de que, realmente, aquele mundo não fazia parte da sua vida, não lhe pertencia. Todos eram estranhos… Não que não os conhecesse. Conhecia-os perfeitamente bem, mas a sua realidade era outra; não pretendia professar a missão da família, recusava-se a ser um simples Preletor da Ordem!

Do primeiro ao septuagésimo nono irmão, todos eram gordos, flácidos e pesadões, com uma estatura mal distribuída nos seus 3,80 metros de altura. Do octogésimo ao centésimo primeiro em diante era um disparate antroponímico! Shartwar sentia-se esquálido e inferiorizado diante dos seus primeiros irmãos… Mas não era em estado de espírito, e sim em proporção… Sabia que um dia também chegaria àquelas dimensões, com altura, largura e profundidade idênticas. Ser “Preletor da Ordem” era um status de excepcional condição social, elevado à supremacia do poder dentro de uma organização científica filosófica. O “Grão Mestre” foi irmão do seu primeiro irmão, mas ao ser condecorado pelos “Pezhatys” com o símbolo de “Gradus Mæstierius” deixou de sê-lo, pois ascendia ao “Cælorum Divinus” e rompia seus vínculos com seus irmãos mais próximos, e assim se sucederia até chegar a sua vez. Ficava horrorizado só de pensar que passaria sua existência debruçado sobre complexos conceitos do “Infinitum mortandeum”. Detestava palavras difíceis que se perdiam no tempo para explicar o já explicado. Queria ser um “Rebelde Proselector”, na verdade, um cosmopolita.

Ao abandonar os estudos no “Scholarium” rompia drasticamente com o “Ligamentum sacraribus” tão falado e deificado por seus 285 irmãos. Uma falha no “Lithathum” criava desarmonia conflitante e o “Grão Mestre” ordenaria o afastamento dos seus irmãos da ordem para contemplação do “Aeternum”. Vê-los criava uma condição de desconforto, ao lembrar que o “Ligamentum sacraribus” fora rompido por sua culpa…

No tempo da “Impröbhia” quando deixara para sempre a “Ordem”, seus irmãos, todos, sem exceção, vieram saudá-lo. Parabenizá-lo pela brilhante decisão e comunicar que seriam os “Adjutores” nos estudos iniciáticos do seu “Cosmopolitanium”. Se não fossem eles, seriam outros, e gostariam muito de lhe ensinar a transmutar-se para ascender ao estado “Libertum” quando partisse em missão específica para algum planeta.

Muitos viam Shartwar como um anarquista sintomático. O “Rebelde Proselector” não era benquisto no ambiente social, pois ao invés de engrandecer a “Ordem” com objetivos mais nobres, furtava-se em viagens extradimensionais, em busca de aventuras irresponsáveis que oneravam o Sistema na compra de equipamentos caríssimos para suas seguranças, além de manter e alimentar cientistas doidivanas e pouco produtivos, na acepção da palavra. Resumindo tudo: um completo desperdício!

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Sobre dekowes

Escritor, Jornalista, artista gráfico, web designer e videomaker. Resido em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, curto caminhada e pratico Swàsthya Yoga.

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