10 Confissões de um Carrasco

Vir para o planeta Terra aconteceu por acaso e, apesar do seu tamanho, iludir os humanos foi fácil. E passou mais de 300 anos fazendo o trabalho sujo para eles. Até que gostava, e tratava os condenados com muito respeito.

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Sou da raça Khöry. Meu povo habita há muitas gerações a estrela Therur, que fica ao sul da Plêiade Kalimax. Esse aglomerado estelar engloba mais 15 pequenos mundos e um montão de satélites artificiais que definham, a olhos vistos, em virtude do enfraquecimento plasmático da estrela Uhrion. Com isso, os habitantes de Therur estão quase se aniquilando mutuamente, em consequência da fome e da miséria que se alastram pelo planeta. Mas saiba que, outrora, fomos um dos maiores postos de minério daquela parte do cosmo. Jorravam rios de diamanterios e abundavam hermafroditas que vinham de Nutylir para alegria dos homens e das mulheres. Era muito divertido quando elas chegavam e os mineradores largavam tudo por um bocado de prazer. Mas o meu povo vivia subjugado pelo rei Vandor, que dominava tudo. Mas depois aconteceu um levante e o tirano foi deposto, julgado e eu, ainda criança, me vi obrigado a executá-lo em praça pública, com uma espada de matar Letosh, uma espécie de leão com uma bocarra cheia de dentes serrilhados e muito afiados. Fui escolhido a esmo no meio da massa furiosa e empurrado pra cima do cadafalso. Mal sabiam eles que estavam selando o meu destino. Como era ainda pequeno, e sem muita força nos braços, decepar a cabeça de Vandor foi motivo de delírio para a multidão que acompanhava o meu trabalho. Cada movimento meu arriando a lâmina, a plebe ignara urrava de prazer e alegria.

Acho que a partir deste momento — mesmo assustado — foi que iniciei o meu gosto mórbido pela morte. Muito tempo se passou, desde que sai do meu planeta, quando a estrela cadente entrou em colapso afogando todo o sistema planetário no caos absoluto de lavas e gases venenosos. Mas desde aquela época de fartura e abundância, foi que comecei a sentir realmente uma certa atração pela morte e a conheci de frente tendo plena convicção. Isso aconteceu muito mais tarde, quando fui para as terras baixas de Manch, e fiz a minha primeira execução profissional: contratado pelo dono da mineradora onde trabalhava, para exterminar um sujeito de antenas e quatro olhos, que media quase 3,50 metros de altura e pesava mais que uma carroça carregada de diamantérios; que estava bolinando com a sua mulher e atrapalhando os negócios na mina. Recebi adiantado o pagamento, e comecei a estudar a morte do draxxyano.

Havia uma ciência nesta pesquisa: o comportamento, o perfil psicológico, a sua natureza, como vivia, seus hobbies e seus vícios. Confesso que fiquei penalizado com o infeliz. Sua única satisfação era realmente bolinar com a mulher do dono da mina, de resto, não fazia mais nada além de trabalhar. Mas, como já havia recebido pelo serviço, procurei um modo de tê-lo morto sem nenhum sofrimento. Já assisti a execuções e detesto frescuragens e pantomimas! Mas como estava dizendo, o serviço precisava ser rápido e indolor. O pobre coitado não merecia sofrer… Nesse ínterim também conheci a esposa do dono da mina, que me colocou numa situação bastante delicada e por demais constrangedora. Já que o seu amante seria morto, e como não havia mais alternativa – como relatei a ela, o pagamento fora adiantado – me antecipou o peso de quatro carroças de diamantérios pela morte do seu marido. Foi realmente uma proposta irrecusável que não protelei muito em aceitar. Com toda essa fortuna, eu podia embarcar num dos cargueiros que saía diariamente de Manch e sumir numa cidade grande ou desaparecer pela galáxia.

A execução do draxxyano foi ocasionada por um acidente na mina, com o descarrilamento de um vagão cheio de minério. O infeliz morreu na hora, sem dor. Obtive sucesso do meu feito, quando o dono da mina com um sorriso desdentado, confirmou a morte do seu melhor funcionário. Mal sabia ele que era o próximo da lista… Pensar, agir com a cabeça. Elaborar um plano… Tudo isso é muito instigante! Na minha juventude, ainda não havia aprendido que não devia misturar negócios e prazer. E quase capitulei diante da mulher do dono da mina, quando veio se oferecendo para mim.

Realmente, foram alguns dias de delírios, mas acordei a tempo, quando me bateu o senso do dever, e a mulher tentou cancelar o negócio. Nesse caso, eu perderia os diamanterios e estaria, mais dias menos dias, com a minha cabeça a prêmio! Para evitar esses problemas, resolvi agir. Já sabia o “modus operandi” da vítima e, uma noite, escondi-me dentro da sua casa, e coloquei larvas de S’ankylioms na sua bebida preferida. Trabalho executado com limpeza e perfeição. Já sabia do resultado e tratei de cair fora! O bom desses vermes mutantes é que se adaptavam facilmente ao elemento onde eram colocados e depois ficavam transparentes; e se deixados por muito tempo, se tornavam mais consistentes e muito mortais. Achei que o dito cujo merecia uma morte com bastante sofrimento e dor.

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Sobre dekowes

Escritor, Jornalista, artista gráfico, web designer e videomaker. Resido em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, curto caminhada e pratico Swàsthya Yoga.

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